OS "33" DO PACÍFICO
Reportagem de Jean Manzon e David Nasser
“Nossos
repórteres vêm de uma jornada de milhares de quilômetros, a bordo de um
“Mitchel” (B-25 igual aos do primeiro bombardeio de Tóquio), acompanhando
de perto, a 600 quilômetros horários, o treinamento dos caças P-40 – dentre
os mais velozes do mundo –, pilotados pelos jovens oficiais do 2ºGrupo de Caça,
que representará a F.A.B. no Pacífico, na luta contra os japoneses.
Esta história podia começar naquele minuto em que o oficial superior
dos “Tigres Voadores” – o General Chenault – disse simplesmente ao
Coronel Bonawitz que os Estados Unidos necessitavam-lhe a experiência em outro
setor menos heróico e de maior utilidade. O Coronel Bonawitz derrubara, em dois
minutos, dois “zeros” e conhecia profundamente o corpo e a alma dos P-40 –
o avião de caça ideal para o combate aos japoneses. Depois de vários episódios
em terras diferentes, Bonawitz tomou o rumo do Brasil, com a missão traçada:
aplicar seus conhecimentos sobre o P-40 no treinamento de guerra dos jovens
pilotos brasileiros. Não era apenas a parte mecânica, a revelação da máquina
e seu funcionamento, mas da técnica dos combates aéreos, dos vôos rente ao
solo, dos ataques contra alvos móveis e fixos, na terra ou na água. Se o
trabalho do coronel dos tigres-voadores deu bons resultados, a resposta está no
fato divulgado pela imprensa norte-americana sobre a desnecessidade de um longo
estágio para esses rapazes antes da ida para o Pacífico.
Numa base aproveitada à engenharia alemã, justamente aquela que servia
de pouso e hangar aos zepelins, os engenheiros militares brasileiros e
norte-americanos prepararam os campos de treinamento. Pistas de concreto foram
construídas para aviões de todos os tipos. Ao redor do grande hangar do dirigível,
os alojamentos para oficiais oferecem hoje relativo conforto. Não há conforto
demasiado, porque os oficiais superiores consideram indispensável a adaptação
dos pilotos à rude vida de batalha. As oficinas de reparos estão situadas
dentro do hangar gigantesco; os serviços de manutenção, limpeza de armas, num
dos campos recém-construídos; as salas destinadas aos estudos dos vôos e aos
cursos avançados, a alguns metros da pista. O gabinete do regimento, Coronel
Ismar Brasil, é um pequeno compartimento. Tudo ali é ambiente de campanha,
desde a camaradagem total até o espírito democrático dos oficiais em relação
aos soldados.
Os 33 oficiais do 2º Grupo de Caça foram recrutados das diversas bases
aéreas do Brasil, de acordo com o alto nível demonstrado. Alguns fizeram curso
de treinamento nos Estados Unidos, outros vieram
do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais, do Norte, de toda a parte. O Capitão
Ildeu da Cunha Pereira, comandante do grupo, deixou sua cidadezinha no oeste de
Minas há alguns anos para a grande aventura do ar. O Tenente Vinhais – que
serve de intérprete nas aulas de Bonawitz – é filho de um famoso “coach”
de futebol. Veloso, um rapaz crestado, veio do litoral nordestino. Os gaúchos
formam o bloco mais compacto: quase todos deixaram um dia Porto Alegre e
constituíram homogênea equipe de pilotos de caça. Há ainda os paulistas, os
capixabas, os fluminenses.
Quase todos esses moços aviadores eram meninos ao começar esta guerra.
Não raros dentre eles aprenderam as primeiras emoções de vôo nos teco-tecos
dos valorosos e nunca suficientemente elogiados aeroclubes do interior, mantidos
à custa de sacrifícios pelas populações das cidades brasileiras. O atual
treinamento tem a assistência técnica dos norte-americanos: Coronel N. C.
Bonawitz, Capt. J. R. Burgette, Capt. H. M. Blaskstone, Capt. R. I. Venemon,
Tenente H. E. Wolstencrift e Tenente V. E. Lupton.
Na aviação também existe a linha justa. Os veteranos detestam a máscara
de heróis. Os novos aprendem a seguir o exemplo de despersonalizar-se em favor
da entidade. O espírito de grupo é intenso, absorvente. Destrói as vaidades
pessoais. “Isto nasce – disse-nos um deles – no vôo de formação”. Os
homens da aeronáutica falam, igualmente, a linguagem da sinceridade, alma
franca e coração aberto, desde o Ministro e os Brigadeiros até os soldados do
reabastecimento. “Quando voamos, sentimos que o avião está sendo realmente
pilotado por cinqüenta homens: quarenta e nove que permanecem no solo e que são
os responsáveis pela segurança do vôo”. O Tenente João Ruy Barbosa, antes
de decolar para a Guiana Francesa, conversava com um oficial, quando o
sargento-mecânico se aproximou, democraticamente. Queria saber se os
“flaps” estavam funcionando bem, se os freios estavam em ordem, e porque o
trem de aterrissagem demorara a sair um dia antes.
-
“Vamos ou não vamos?” Paraquedas disse isto e ficou olhando para nós,
como se fôssemos decidir ali mesmo, naquela hora, o seu destino. Havia febre em
sua voz. Depois, veríamos que a febre era geral. A idéia de “Japão” se
alastrou como se fora uma velha idéia. E realmente, há muito que eles pensam
isto, os oficiais mais antigos.
“A verdade – dizia-nos um deles - é que temos horror em parecer heróis
e por isso ficávamos sempre receosos de uma interpretação errada, quando nos
apresentássemos. Desde que o Primeiro Grupo de Caça se portou dignamente na Itália,
desejamos ardentemente atuar no Pacífico. Sabíamos que o pessoal veterano –
o da campanha terminada – disputaria o privilégio de embarcar para as linhas
do Pacífico. Preparamos, cuidadosamente, nosso plano e treinamos intensamente.
No dia em que o Ministro Salgado Filho visitou a base para assistir aos exercícios,
um dos nossos oficiais saiu do grupo. O Tenente Vinhais tinha o encargo de falar
por todos. Com voz clara, ele disse o que pretendíamos. Não imaginávamos que
o Ministro ficasse tão emocionado com o pedido. E, imediatamente, naquela mesma
hora, ele fez a promessa que está em nossos pensamentos dia e noite: “Se o
Brasil decidir mandar a FAB, vocês serão os primeiros”. Desde esse dia, o
treinamento do Segundo Grupo – que já era dobrado – passou a ser um
verdadeiro treinamento de guerra”.
Acomodações toscas, como em campanha, mas tudo limpo. A alimentação
é simples e sadia, muito leite, muitos legumes, e a camaradagem é a melhor
coisa que impera naquela planície. O Comandante, Coronel Ismar Brasil, é um
desses tipos de aviadores que se tornaram símbolos, como Geraldo Aquino Correia
de Melo, Luiz Sampaio, Nero Moura, Antônio Basílio, Fontenelle e muitos
outros.
Neste grupo de caça, então, a disciplina é mantida a todo custo,
valentemente, sem que a camaradagem desapareça. O treinamento de bombardeio de
mergulho está sendo realizado com intensidade, assim como os vôos rasantes. Os
rapazes que integram o Segundo Grupo não são cadetes, mas aspirantes e
oficiais que passaram por treinamento avançado. Nos Estados Unidos farão
apenas um curto estágio de adaptação, para em seguida embarcarem no rumo das
ilhas do Pacífico.
O Capitão Ildeu – o jovem “três
insígnias” de 28 anos – é o comandante do Segundo Grupo e ele,
provavelmente, será o chefe de uma das esquadrilhas. O comando efetivo do grupo
pertence a um tenente-coronel. No treinamento dos pilotos colaboram
norte-americanos e veteranos brasileiros, entre os quais o Capitão Taborda, que
mal pisou o Brasil, de volta da Itália, entregou-se à missão de prepará-los
cuidadosamente. Censurava os “arrebatamentos próprios da mocidade”. A
bravura coletiva, o espírito de equipe, a “formação” antes de tudo. Por
fim, os americanos do norte chegaram com os P-40.
Preparamo-nos para a decolagem num “Mitchel”, pilotado pelo Capitão
Ildeu. Os doze caças P-40, liderados pelo Tenente Veloso, partem e ganham
altura rapidamente, entrando em vôo de formação. O B-25 em que voamos
consegue, a custo, acompanhar a velocidade alucinante dos caças, que
desenvolvem seiscentos quilômetros, sem nunca perderem a distância que guardam
entre si.
Durante horas, assistimos aos exercícios em que a perícia e o alto grau
de treinamento desses rapazes aparecem perfeitamente demonstrados. Adquiriram
precisão nos tiros, nos bombardeios de mergulho, no vôo rasante, na
aterrissagem e na decolagem. Horas e horas eles sacrificaram para levantar cada
vez mais a fé de ofício. Eles aprenderam algo mais: a estimar o seu Ministro,
que lhes procura facilitar tudo. O Comandante Brasil, aquele que – insistem
– é a solução, a fé e a garantia; o
Tenente-Coronel Gabriel Moss, chefe das operações; o
Major Novais, que colabora decisivamente. E a todos os oficiais, como o Capitão
Ildeu e os norte-americanos, que não poupam esforços para o mais avançado de
todos os treinamentos de guerra. Há mais gente que eles nunca esquecerão:
aqueles anônimos soldados mecânicos, sargentos ou humildes limpadores de
metralhadoras – homens que zelam dia e noite pela segurança de cada vôo.
“Por avião que está no ar, cinqüenta homens trabalham na terra”,
falou-nos um dos aspirantes do Segundo Grupo de Caça. Somente os corpos desses
homens, porque as almas seguiram junto ao avião. E nesse passo irão mais além
de Honolulu.
Depois do vôo de treinamento do 2º Grupo de Caça, constatou-se,
naquela tarde, que deixara de regressar à base o avião 62, pilotado pelo
aspirante Sá Osório. O líder Veloso conversara com ele pelo laringofone a
certa altura, porém um minuto após chamara sem resultado. O Capitão Ildeu, em
buscas incessantes, acabou por descobrir o aparelho enterrado na lama da baixada
fluminense. Apenas o número 62 e as iniciais “FAB” eram visíveis. Três
metros terra adentro, avião e aviador, num
acidente que nenhum dos pilotos assistiu, pois Sá Osório era o último da
formação. O grupo perdeu, assim, um dos 33 elementos. Outro piloto virá de
longe”.
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