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Um Avião de Caça para a FAB
Nunca manifestamos a nossa opinião sobre quais seriam as aeronaves que deveriam ser compradas para reequipar a Força Aérea Brasileira. Por certo, isso não aconteceu porque não tivéssemos idéias próprias sobre o assunto, mas por considerarmos que tal não nos cabia e que, ainda que continuemos, mesmo na inatividade, a acompanhar, com muito interesse, tudo o que diz respeito à nossa Força, não dispomos de todas as informações necessárias a uma definição tão complexa como essa. Por que deveríamos tumultuar o processo com impressões pessoais, se os nossos companheiros mais novos que ainda estão no Serviço Ativo têm o conhecimento técnico, a competência legal e a retidão de caráter indispensáveis à indicação da melhor opção para o Brasil e para a FAB? Assim, causa-nos espécie e revolta que pessoas movidas por interesses estranhos, como o embaixador petista Celso Amorim e o presidente brasileiro do foro de São Paulo venham dar palpite sobre temas dos quais nada entendem. Eles devem conhecer tanto de compra de aeronaves de combate quanto nós de implantar ditaduras comunistas na América Latina e comprometer a diplomacia brasileira com governos ditatoriais e grupos terroristas internacionais. Imagino que, depois disso, o Comandante da Aeronáutica esteja autorizado a indicar a melhor maneira de colocar a nossa Política Externa novamente nos eixos. Sem dúvida, se assim fosse, não seríamos vítimas de todas essas ações antinacionais impostas por instituições do Estado brasileiro postas a serviço de ideologias e interesses alienígenas. Foi amplamente noticiado que o presidente já escolhera o avião francês Rafale – e assim o declarara – antes mesmo, de receber o relatório da Aeronáutica. Igualmente, foi divulgado que o ministro da defesa teria sugerido que o referido relatório mascarasse a verdade dos fatos, deixando de indicar um vencedor, apenas listando as vantagens e as desvantagens de cada um. Mais tarde, disseminou-se que, apesar da interferência indevida de Nelson Jobim, o Relatório da Força Aérea apontara o avião sueco Gripen como o mais indicado. Novamente, circulou a existência de ingerência indevida, desta vez do presidente da Republica, que se teria somado ao ministro para determinar, agora diretamente, que a Aeronáutica mudasse o seu relatório. Sempre vemos com muita reserva tudo o que tornam público os meio de comunicação, geralmente a serviço de interesses ocultos, principalmente em transação internacional bilionária como essa. Não obstante, neste caso, não temos por que duvidarmos de que as coisas aconteceram mais ou menos como visto, já que, há alguns dias, em conversa com um integrante do Alto-Comando da Aeronáutica, dele ouvimos manifestação muito firme em defesa dessa escolha e nenhuma das outras matérias jornalísticas foi categoricamente desmentida. Como sabemos, ninguém é obrigado a seguir orientação de assessor, e muitas vezes vimos, em nossa vida profissional, Comandantes decidirem diferentemente do que fora recomendado, mas todos tiveram a coragem de assumir a responsabilidade pelos seus atos, sempre praticados na convicção de era feito para o melhor interesse da Força Aérea e do Brasil. Nenhum deles teve a “cara-de-pau” de mandar fraudar os termos do relatório, e se o tivesse feito, provavelmente, não teria sido atendido. Recentemente, tem circulado que o Brasil pagaria dez bilhões de dólares por 36 Rafales, enquanto a Índia se teria recusado a desembolsar o mesmo valor por 126. Sobre isso, a coluna do Merval Pereira em O Globo de hoje, 22 de janeiro, traz longo discurso do representante da Dassault e do Consórcio Rafale no Brasil, Jean Marc Merialdo, em que procura “dar nó em pingo d’água”, como se costuma dizer, para explicar essa abismal assimetria de valores para a mesma aeronave. Não parece crível os indianos fossem comprar somente a carcaça, o que poderia justificar tamanha discrepância. Assim, não seria difícil imaginarmos para onde iria boa parte dessa diferença de preços. Qual é o caça que o Brasil deveria comprar para a Força Aérea? A nossa simpatia pessoal por esse ou por aquele avião é, como já dissemos, irrelevante, ainda mais se considerarmos que, com relação ao estado da arte, os três já são obsoletos, principalmente porque o escolhido – se, de fato, vier a ser comprado – somente entrará efetivamente em operação, aqui no Brasil, dentro de aproximadamente uma década, o que torna mais importante que o contrato nos assegure aquisição de tecnologia que nos dê autonomia no desenvolvimento das gerações futuras dos nossos caças, do que as características operacionais das aeronaves concorrentes. Uma coisa, porém, é certa: mesmo se a opção presidencial for a melhor, não seria essa a razão da escolha. O sobrefaturamento nos dá uma boa idéia das verdadeiras motivações por trás dessa “decisão política”. De resto, o discurso oficial mais parece baboseira para encobrir negociações escusas e enriquecer algumas contas partidárias em paraísos fiscais.
O autor é Coronel-Aviador reformado.
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