Um País de Escravos?

 

 

 

Sergio Tasso Vásquez de Aquino

Em 11 de dezembro de 2008

 

 

 

 

O belo, portentoso e amado Brasil parece estar transformando-se num país de escravos, satisfeita e gostosamente sujeitos à espoliação e à exploração dos opressores, os próprios governantes e legisladores de todos os níveis.

Tudo para nós é mais caro que em países mais ricos e de maiores rendas, graças ao seqüestro fiscal que retira mais de 40% dos rendimentos dos brasileiros que trabalham e que produzem, o dobro da derrama ou “quinto dos infernos” que levou outros brasileiros, de outra época e de outra fibra, a levantarem-se contra a metrópole portuguesa, na heróica jornada da Conjuração Mineira de 1789.

O pior é que grande parte dos recursos arrecadados vem sendo desviada pela avassaladora corrupção, que tomou conta dos Três Poderes e de todos os níveis do Estado e do governo, como tristemente comprovado pela maldita roda de escândalos que dessangra e humilha a Nação, impunemente, há tanto tempo. Os malfeitores, que se apossaram do poder, escarnecem e debocham das pessoas de bem, desviando, para bolsos, cuecas e meias indevidos, o produto dos impostos que deveriam servir ao aperfeiçoamento da máquina pública, na prestação dos serviços que lhe incumbe prestar, para elevação da qualidade e do nível de vida dos concidadãos. A sabedoria popular, já há algum tempo, havia, trágica e profeticamente, cantado a escabrosa situação: “Se gritar ‘Pega ladrão’, não sobra um, meu irmão!”

O triste resultado tem sido o da constatação diuturna de um país que se deteriora moral, espiritual e fisicamente. Logo o tão belo, rico e incomparável Brasil, nossa paixão maior e motivo de toda a nossa dedicação e entrega total!

Acabei de voltar de viagem aos EUA, a segunda no período de um ano, havendo lá permanecido por cerca de um mês em ambas as ocasiões. Pude, assim, viver amplas e variadas situações, muito observar e, em conseqüência, sopesar, meditar... e comparar. O resultado encheu-me de pena e tristeza.

Os americanos não são melhores do que nós; ao contrário, faltam-lhes o calor humano, a alegria de viver, a espontaneidade, a abertura de coração e de braços (o abraço amistoso e carinhoso é nossa marca) que tanto nos distinguem e caracterizam. Mas construíram uma grande nação, graças ao seu arraigado sentimento de patriotismo e de cidadania, de trabalho dedicado e de cobrança, sem titubeio, delongas e quartel, do cumprimento das obrigações devidas por quem tem o múnus de governar, legislar, julgar. Lá, não impera a impunidade, e quem labora contra o bem comum, prevarica e rouba os haveres públicos não escapa das duras penas da lei, seja quem for, ocupe que cargo ou função, seja dono de qual nível de patrimônio!

A responsabilidade, pois, é a tônica vigente, e o resultado é que, apesar da grave crise econômica, na Flórida que percorri, as estradas, avenidas e ruas são verdadeiros tapetes de asfalto, as cidades limpas e bem cuidadas, as escolas públicas primorosas, os hospitais bem mantidos e operantes; a polícia é tranqüilamente mantenedora da ordem, amada e respeitada pelos cidadãos, a violência zero e a paz, nos ecologicamente perfeitos e belos locais de moradia da classe média, verdadeiros parques lindamente gramados e arborizados, uma constante!

Os impostos arrecadados revertem, efetivamente, em benefício do povo e o “custo corrupção”, ao contrário do que ocorre entre nós, não cobra seu altíssimo e injustificável pedágio. Governantes e legisladores, mesmo que no fundo possam não ser honestos, fingem que são e trabalham em benefício dos eleitores, que exercem permanente e cerrada cobrança. De tempos em tempos, reúnem–se eleitos e eleitores, nas “public hearings” que se sucedem pelos distritos eleitorais. Quem não estiver correspondendo, ou cuja atuação não estiver agradando, pode perder o mandato pelo instituto do “recall”, isto é, o povo que vota tem a faculdade de “desvotar”, afastando a figura indesejável do cenário público-político.... E o Judiciário, justo e correto, garante o equilíbrio social.

Não existe o culto da personalidade, que faz nosso arremedo de democracia muito mais próximo de regime totalitário do que de autêntica democracia: só vi o Presidente Obama por três vezes na televisão, ao contrário do que ocorre entre nós, quando, por exemplo, Lula e seus ditos, metáforas e gracejos freqüentam noticiários da televisão e páginas da mídia impressa todos os dias e todas as horas, com notoriedade maior que a dos astros de cinema e tv e os grandes heróis esportivos populares... O mesmo se passava com FHC, Itamar, Collor nos seus períodos de poder, já que a bajulação e a busca de dividendos decorrentes parece ter sido elevada a arte nacional!

O absurdo do “custo Brasil”, originado de altos impostos, corrupção generalizada e pobres gerenciamentos governamental e empresarial e infraestrutura de armazenamento e transporte, pode ser avaliado, quando se comparam os preços de produtos industrializados nos dois países, ao câmbio atual de R$ 1,80/US $: aparelho de tv de 40”, LCD full HD, R$ 3.999.00 (Brasil), R$ 720,00 (EUA), home theater 250 watts de potência, R$ 899,00 (Brasil), R$ 180,00 (EUA), reprodutor de DVD “blue ray”, cerca de R$ 1.200,00 (Brasil), R$ 144,00 (EUA), automóvel Honda Civic ou Toyota Corolla, entre R$ 80.000,00 e R$ 90.00,00 (Brasil),  R$ 40.000,00 (EUA).

A gasolina comum, aqui vendida por R$ 2,67 o litro, lá custa US $ 2,67 o galão (R$ 1,27 o litro). As roupas, principalmente de homem e de criança, estão baratíssimas, quando levados em conta os preços no Brasil, e até a comida, nos supermercados e nos restaurantes e redes de “fast-food”, está a custo comparável com o que vige entre nós. E a renda média dos americanos é bem mais alta que a nossa!

Os políticos que nos regem, governam, fazem nossas leis, têm sido cruéis e insensíveis padrastos do Brasil e do seu povo, principalmente nos últimos anos. Fazem da mentira contumaz poderosa e eficaz arma política, para se perpetuarem no poder. Via de regra, vêm colocando seus interesses pessoais, sua perversão ética e moral, sua ambição por poder e haveres, a qualquer custo e a qualquer preço, seu desinteresse e seu desprezo pelo que é justo, digno e certo, suas inclinações ideológicas, muita vezes inaceitáveis ou inconfessáveis, acima do bem comum, da moral, da ética e do verdadeiro interesse nacional e do povo. Muitíssimos fazem do butim da coisa pública nefanda prática comum. No entanto, são eleitos e reeleitos sistematicamente, gozam do aplauso e da aprovação populares, com índices até acima de assombrosos 80%...

Perdemos, como povo, o senso de medida, a capacidade de julgar, de discernir entre o certo e o errado, o bem e o mal, ou, anestesiados pela propaganda, pelo “faz-de-conta” tão rotineiramente e há tanto tempo transmitido por porta-vozes oficiais e a mídia cooptada, bem paga e agradecida, nos vamos tornando numa legião desfibrada de escravos, incapaz de reagir contra o mal que nos atormenta e que, adorando-os,  beija as mãos dos seus opressores, por estar sofrendo de generalizada “síndrome de Estocolmo”?

É no abastardamento moral, que se faz generalizado e a que, compungidamente, assistimos, os bons brasileiros que, solitariamente, clamamos no deserto, sem forças para revertê-lo por ora, que reside a maior ameaça para a paz, a liberdade, a justiça, a democracia, o futuro do adorado Brasil.

As bases da reconstrução nacional, depois da tormenta dos últimos 20 anos, estão no soerguimento e no  fortalecimento da Expressão Psicossocial do Poder Nacional, tão atacada, desprezada e sabotada por tantos, dotados de tanto poder, mas tão mal empregado. À luta sem desfalecimento, pela recondução do Brasil aos caminhos da vergonha, do progresso, da paz e da justiça, pois, dediquemos prioritariamente todo o nosso patriótico labor e o empenho de nossas vidas, com coragem e alento redobrados!

 

O autor é Vice-Almirante reformado.